TV anuncia Nobel a Gabo e o entrevista. Confira!

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sexta-feira, 4 de maio de 2007

Eric Nepomuceno. Amigo e grande tradutor das obras de Gabo.





De Havaianas brancas, jeans e camiseta tipo Hering azul, Eric Nepomuceno recebe a reportagem em sua casa de três andares no Jd. Botânico, no Rio. Aos 57 anos, ele acende um cigarro Charm atrás do outro. "Só posso fumar do meu maço porque aí consigo fazer um controle de quanto fumo por dia. Ordens médicas", explica, ajeitando um cinzeiro na mesa da varanda enfeitada por plantas.

Uma visita anterior ao seu escritório, no primeiro andar, com livros e jornais amontoados pelo chão e nas estantes, mostram uma flâmula do Fluminense, um exemplar de "Notícia de um Seqüestro" e páginas de "O General em seu Labirinto", ambos de Gabriel Gárcia Márquez, com anotações do próprio. Eric mesmo admite: é mais conhecido como tradutor de Gabo, o colombiano Prêmio Nobel de Literatura em 1982, do que como escritor. Ele afirma só traduzir os autores de que gosta, geralmente amigos.

"Não sou tradutor, não vivo disso; sou escritor. Cheguei a um ponto da vida em que consigo diferenciar o que é bom e o que eu gosto. Às vezes, coincide. Eu faço a escrita alimentícia, aquilo que a gente escreve para comer, e também a escrita por prazer", reconhece. "A essa altura, não tenho mais vontade de traduzir porra nenhuma, mas meus amigos continuam escrevendo..."

Ele e Gabo se conhecem desde 1978, quando se encontraram em Cuba. Eric foi morar no México, lar também do colombiano, e os dois se tornaram íntimos. "Eu e o Gabo sempre bebemos juntos, mas ele nunca fica bêbado. Uma única vez na vida a gente sentou pra beber mesmo, na casa dele. Ele tinha acabado de ganhar o Prêmio Nobel. Então nos reunimos eu, ele e o Jorge Castañeda [escritor mexicano] e assaltamos o depósito secreto de champanhe da mulher dele. Era um estoque que valia o preço de um Nobel!", diverte-se.

O tradutor conta que raramente procurou o autor, apesar da amizade, para falar de tradução, e que não conversou com Gabo durante a tradução de "Memória de Minhas Putas Tristes" (ed. Record, R$ 24,90, 128 págs.), na lista de best-sellers desde o ano passado.
"Ele só me pediu dois favores: faça uma boa tradução e não me consulte para nada. Se você só traduz por afeto, a responsabilidade é muito maior. Eu lia trechos e lembrava de conversas de 15 anos atrás com o Gabo, e ficava vendo como ele remói coisas antigas. O escritor escreve sempre o mesmo livro, como ele mesmo diz."

Pelo mundo Eric é assíduo "freqüentador" da América Latina há 42 anos. A jornada começou graças a seu pai, físico, que sempre ia ao Uruguai a trabalho. "Quando eu tinha 16 anos, ele me levou a Montevidéu, e eu me encantei", lembra. "Tinha morado na Alemanha e na França na infância, mas não fazia idéia do que era o nosso continente. Hoje, posso sonhar em espanhol, namorar, até brigar."

Morou também na Argentina, onde começou a escrever --seus três primeiros livros foram publicados em espanhol. "Para impressionar as moças, eu dizia que perseguia a democracia. Mentira, deixa o [Fernando] Gabeira contar essa história. Eu fui para Buenos Aires mesmo, em 1973, atrás do [Astor] Piazzola (músico argentino). Acabei ficando amigo dele."

Para que os amigos brasileiros pudessem ler o que estava descobrindo, começou a traduzir os amigos latino-americanos. "Traduzir é um meio de compartilhar todo esse mundo", diz. "Mas nunca acho que sou o escritor da obra que estou traduzindo. A tradução é uma releitura, embora o texto em português seja meu."

A mulher, Marta --que ele chama de "minha namorada há 35 anos e 29 dias"--, já discordou dessa tese. "Muitas vezes, Marta acordava às três da manhã, impressionada com a beleza do 'meu' texto --parecia que era eu quem estava escrevendo, e não o Gabo, que tinha feito uma sinfonia de câmera, algo emocionante."
O único filho do casal, Felipe, 30, documentarista, também ficou encantado com o gênio colombiano --mas por motivos, digamos, menos nobres. "Em 1996, eu estava em Madri e encontrei o Felipe, que há oito meses viajava pelo mundo. O Gabo estava em Barcelona e veio nos encontrar. Ele nos levou a um restaurante caríssimo, não é lugar para escritor iniciante--, e comemos um banquete enlouquecedor. Gabo dizia que não existia maior prazer que ver um jovem artista comer bem. Ele se referia ao meu filho, que tinha então 20 e poucos anos."

Há 23 anos de volta ao Brasil, Eric adotou uma rotina bem light: segunda, terça e quarta fica no Rio e, na quinta de manhã, sobe para sua casa em Petrópolis. Gosta de brincar que é cozinheiro, cita seu hobby, escrever, e diz que não consegue mais ler alguns de seus próprios contos em português. "O [Eduardo] Galeano (escritor uruguaio) traduziu alguns que eu gosto mais em espanhol do que no original. Talvez porque tenham sido vividos em espanhol", acredita.

Mas foi por Gabo que Eric fez algo que nunca tinha feito: ligar para uma editora e pedir para traduzir um conto. "Quando o Gabo acabou de escrever 'O Rastro do Teu Sangue na Neve', eu fui fazer uma feijoada na casa dele, e ele estava tristíssimo, ninguém entendia. Dias depois, ele me deu o conto para ler, e era belíssimo. Na hora, quis traduzi-lo."

Eric lembra já ter dito a Gabo que suas obras o emocionaram a ponto de inspirá-lo a escrever. "Sabe, aquela conversa de velhos viados", brinca. "Sou da geração de 48. Existe uma enorme diferença entre fazer amor e se masturbar. Fazendo amor você corre riscos, pode se apaixonar, pode se machucar, pode nunca mais voltar ao normal. Qualquer coisa que eu leia e não mexa o chão embaixo do meu pé não valeu a pena ter sido escrito."



Fonte

Um comentário:

pc guimarães disse...

Gente
Não entendi a foto do Darcy Ribeiro na matéria do Eric Nepomuceno.
pc

El amor en los tiempo del colera

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